Harald Höffding, baseando-se no fato de a analogia desempenhar um papel fundamental em qualquer ato de pensamento aplicado a objetos concretos, ao passo que a identidade de objeto e de relação, de tipo lógico e aritmético é uma pura abstração, diverge de Aristóteles e de Kant 1
que não incluíram a analogia no número das «categorias», isto é, dos conceitos fundamentais do pensamento humano. Por isso, Höffding é o primeiro filósofo moderno a introduzir o conceito de analogia nas categorias formais, imediatamente após o conceito de identidade. Höffding mostrou que a analogia é a base da redução das relações de qualidade, de tipo serial e que ela intervém, a este título, na evolução dos conceitos de número, de grau, de tempo e de lugar; daí a sua importância primordial nas operações mais importantes do conhecimento humano.
A analogia voluntária e consciente começa por uma reflexão sobre as semelhanças e as diferenças e estas podem incluir numerosos graus entre a diferença «caótica» e a identidade absoluta. O nosso pensamento ocidental evolui sempre entre dois polos: o indeterminável e o determinado, a desigualdade total e a igualdade perfeita. Assimilar o «Uno» ao «idêntico sempre igual a si próprio» diferencia, com efeito, desde Platão, a «marca» e de certa maneira o tipo da filosofia ocidental pois, através de todas as suas variações melódicas, encontramos este tema essencial.
Por isso, não é surpreendente constatar que o raciocínio por analogia, cujo papel era fundamental nos processos do pensamento mítico e ainda o é em civilizações diferentes da nossa, foi constantemente reduzido pelo pensamento ocidental, ou a uma espécie de «pensamento falso» ou a uma forma «inferior» do conhecimento, indigno de ser incluído nas «categorias» do entendimento, segundo Aristóteles e Kant, ou a um processo psicológico ou até a um processo estético.
Aliás, existe outro postulado constante na filosofia ocidental: só é verdadeiro aquilo que é pensado como tal, quando pode suceder que o pensável dependa do impensável tão intimamente como o audível do inaudível e o visível do invisível. Aquilo que percebemos das oitavas da luz não é «mais real» do que aquilo que não percebemos: só o é relativamente a nós e aos nossos meios de percepção. A tendência para atingir uma identidade absoluta enquanto forma e resultado supremo do pensamento, o desejo de encontrar finalmente, para além de tudo o que é caótico, múltiplo e diverso, o repouso num pensamento perfeitamente igual e unido ao seu objeto, caracterizam uma obsessão permanente do Ocidente, uma necessidade de ordem única do verdadeiro no universo que seria, por si só, capaz de justificar a infinita diversidade de todas as manifestações reais. Nesta perspectiva, a interpretação tanto pode ser materialista como idealista, a sua base oculta não varia: é a lógica da identidade, tão determinante para a mentalidade do civilizado contemporâneo como a da «participação pré-lógica» no primitivo. Assim, criamos um mundo de «pensamentos» que se tornaram maquinais, sem nos interrogarmos o suficiente acerca das bases da nossa lógica, dos nossos raciocínios e das nossas interpretações da natureza, do homem e do universo.
O problema fundamental que, no entanto, a analogia continua a pôr não se liga a um esquematismo duma unidade de ordem, puramente ideal e abstrata, que permitiria, a partir dum termo primeiro, idêntico e sempre igual a si próprio, conceber metafisicamente uma semelhança proporcional de termos análogos entre si. O problema, ainda atual, da analogia, é o de uma experiência concreta da multiplicidade dos significados do ser entre os quais o processo analógico explora e pressente semelhanças de relações, mesmo sem poder provar logicamente que se trata de identidades «absolutas». Efetivamente, o homem não é só capaz de conhecer, pelo menos, uma parte do real, racional e cientificamente. Temos que reconhecer-lhe também o poder de adivinhar o resto e, pelo menos, de entrever aquilo que o seu saber não atinge.
Se admitimos a realidade dos «clarões de inteligência» que por vezes brilham nos olhos dos cães, seria levar a humildade demasiado longe recusarmo-nos a acreditar nos nossos «clarões de espírito» e no «faro» analógico indispensável a qualquer «pesquisa», animal ou humana. Este postulado não exige teorias ambiciosas acerca da natureza última da «ciência do ser enquanto ser», nem acerca da diferença entre «o ser comum às coisas do universo» e o «ser primeiro e único». A base lógica que proponho pode resumir-se nalgumas palavras: qualquer experiência e qualquer conceito só têm sentido em função dum excedente experimental e conceptual que a lógica da identidade não esgota e que, no entanto, permanece aberto à lógica da analogia.
NOTAS: